Sexta-feira, Abril 08, 2005

A questão da questão...

Consta que a questão a referendar quanto ao aborto vai ter a mesma redacção que a anterior: «Concorda que deixe de constituir crime o aborto realizado nas primeiras dez semanas de gravidez, com o consentimento da mulher, em estabelecimento legal de saúde?»

Convém debater o tema desde já, visto ser um tema fracturante, um tema importante com discussões, por vezes, desesperantes.

Algumas questões:

Se a mulher não fizer o aborto em estabelecimento legal de saúde, isso continua a ser crime, com julgamentos das pseudo-enfermeiras que enriquecem à custa da miséria das outras (é que isto de legalizar é muito bonito, mas nada garante que as mulheres passem a ir aos hospitais só porque passa a ser legal)?

Posto isto impõe se uma outra pergunta: se assim for a esquerda continuará a sitiar os tribunais para contestar que a lei é crime, e dizer que quem manda na sua barriga é a mulher? Ou deixa de se ir manifestar, porque agora as mulheres têm a escolha, e só vai à curiosa quem quer, e quem vai sujeita-se, e quem se sujeita e é apanhado vai a tribunal e é julgado e condenado porque devia ter ido ao hospital. Bem, calma aí, se houver a aprovação duma nova lei, a esquerda deixa de se manifestar por mulheres que são julgadas por abortar, por uma questão de higiene? Ou passa a agradar-lhe a lei, e por isso as mulheres (esse ser demasiado sensível para entrar num tribunal) podem ir a tribunal por quebrarem esse mesma lei? (Sim, para a esquerda há leis boas e leis más; resumem-se às que se devem cumprir, dum lado, e às que se devem evitar cumprir, do outro) Mas então não percebo porque se manifestam hoje, quando as mulheres estão a fazer algo que põe em perigo a sua vida e a da criança, e esse comportamento é punido em qualquer sociedade (sim, em qualquer sociedade civilizada o suicídio ou comportamento suicida é perseguido porque atenta contra a vida humana). A minha ideia sobre esta questão? O aborto em estabelecimento legal de saúde põe em perigo o nascimento da criança. O demais aborto, acrescenta o perigo à vida da mãe (que já nasceu).

Seguindo: Se o "sim" ganhar, pode-se referendar a questão de novo em 2012 (=2005+ (2005-1998))? É isto que o PS diz, ao passar a matéria em referendo. Diz que é competência dos cidadãos decidir, e diz que de sete em sete anos (pelo menos) há espaço para o fazer. Agora digam isto ao Dr. Louçã, ou
demais Anacletos. "Não", dirão, "O "sim" será uma evolução, e não um retrocesso, se ganhar o sim, nunca se poderá voltar atrás, porque a sociedade evolui para a frente! (?)" Eu acho sinceramente que o aborto não deve ser liberalizado. E acho que não é matéria referendável, como não é a pena de morte, por exemplo. Mas ao passar-se a questão para o povo através do (novo) referendo, tem que se aceitar que o povo se volte a manifestar, seja qual for o resultado hoje. Assim entramos (novamente) na questão da validade temporal da decisão do povo, e na questão (que, curiosamente, ninguém aborda) da suposta superioridade moral duma decisão (a do SIM face à outra, a do NÃO). Se de facto é isto que pensam os senhores, e estou convencido que sim, então que passem a lei na AR. Não faz sentido levar a questão a referendo se não estão prontos a lidar com as consequências.


Mais uma questão: Porque raio para abortar se deve apenas ter o consentimento da mãe? A mulher tem uma posição privilegiada, quanto à concepção da vida. É assim por natureza, e é por isso as mães têm relações muito fortes com os filhos, desde que a criança é gerada. E é certo que para fazer nascer uma criança é preciso uma mulher que durante nove meses (quase necessariamente) mude de vida, e que sofra (quase necessariamente) ao dar à luz. Mas ao requerer apenas o consentimento da mãe para poder matar a criança no ventre, além de se lhe retirar o direito à vida, está-se a impedir o pai do direito a ser pai. Ou não? Se a mãe entender que não quer ter a criança (não percebo porque é que não tomou providências antes; os centros de saúde facultam as "ferramentas" de forma gratuita e desburocratizada - e ainda bem!), ao menos devia se permitir ao pai ter a oportunidade de criar e ver crescer um filhos seu.*

Bem, não sei porque escrevi este post, mas hoje acordei algo inspirado... De qualquer das formas nem devia estar a escrever: eu não tenho filhos. Mas tenho duas sobrinhas. Lindas.


Tio Micha

*Sim, as coisas por vezes correm mal. Mas o que nos faz humanos é justamente como reagimos face a dificuldades. A nossa vida está cheia de imprevistos e de situações que não conseguimos, por mais que queiramos, evitar. Aprender a lidar com estas situações e não fugir ao mínimo entrave ao nosso plano de vida, só nos faz crescer, e acaba por nos definir como humanos.